"- E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão..."
Os Maias

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

El rey

Em (dois mil e doze) mil oitocentos e noventa e dois foi assim...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Escuta, Amor


Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.

Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.

José Luís Peixoto, in 'Abraço'

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Não há liberdade sem direcção

É fácil estabelecer a ordem de uma sociedade na submissão de cada um dos seus componentes a regras fixas. É fácil moldar um homem cego que tolere, sem protestar, um mestre ou um Corão. Mas é muito diferente, para libertar o homem, fazê-lo reinar sobre si próprio.
Mas o que é libertar? Se eu libertar, no deserto, um homem que não sente nada, que significa a sua liberdade? Não há liberdade a não ser a de «alguém» que vai para algum sítio. Libertar este homem seria mostrar-lhe que tem sede e traçar o caminho para um poço. Só então se lhe ofereceriam possibilidades que teriam significado. Libertar uma pedra nada significa se não existir gravidade. Porque a pedra, depois de liberta, não iria a parte nenhuma.

Antoine de Saint-Exupéry, in 'Piloto de Guerra'

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Azeite sal e vinagre

Como adoro fotografar a comida quando me sento à mesa,
como que para eternizar os meus pratos e cada refeição,
como se estivesse a agradecê-la a Deus, sem o verbalizar.
Aliás, quando tiver filhos, vou fazê-lo sempre no início das refeições.
É isso e a benção antes de sairem de casa!:)
Hoje ao jantar fotografei a minha salada de alface e... maçã!
Temperada com, imagine-se, 
azeite, sal, vinagre ou limão. No caso, os dois!
Nada mais simples.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Se eu não fosse advogada?!

Seria cabeleireira...
Porque gosto das cabeleireiras e do seu modo de vida. Aquelas que são (agora e para sempre) as minhas cabeleireiras, não fecham a porta à hora de almoço e cortam o meu cabelo pelo preço mais simpático da actualidade. Parecendo que não, uma cabeleireira sabe mais da sua cliente do que muitas amigas da própria cliente. Uma cabeleireira é inteligente. Sabe ouvir. Tem sempre resposta para tudo. Sabe conversar. Só fala sobre aquilo que a cliente quer falar. Ou não fala. Tem temas de conversa em tons de rosa-choque. Fala da Troika sem um tom de fim-de-mundo, porque afinal temos é que trabalhar, como sempre. Uma cabeleireira tem filhos e uma família organizada. E se não tiver, organiza-se! Uma cabeleireira é muito prática. Perspicaz. E bonita. Pelo menos todas as que eu conheço...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O país avança...

Já falei aqui da democracia directa?! Os indignados são, neste campo, um exemplo a seguir. No dia-dos-indignados, deliberaram todos em conjunto - por unanimidade - e decidiram o seguinte:
mudar-se da frente do Parlamento, para a frente do palácio de S. Bento.
E assim foi, a coisa funciona! O país avança.

domingo, 18 de setembro de 2011

Setembro, love it.


Fez este mês um ano que mudei de cidade... e simultaneamente, de vida. Faz um ano que comecei a trabalhar, um ano que deixei de escrever frequentemente no blogue. Faz um mês que me comprometi com um amigo a escrever dia-sim-dia-não, o que não aconteceu até aqui. Há tanta coisa que quero fazer, tanta gente a quem quero dar atenção, mas para as quais, não tenho conseguido arranjar tempo. E isto numa cidade onde acordo meia hora antes da hora a que quero estar no escritório, e onde demoro 5 minutos a chegar ao trabalho. A verdade é que continuo a dizer que tenho que mudar alguma coisa no preenchimento do meu dia-a-dia. Quero dar jantares em minha casa, visitar a minha família e os meus amigos.
Apercebo-me todos os dias que os meus serões são, efectivamente, a parte mais importante do dia, e como tal, é aos meus serões que eu tenho que fornecer qualidade de vida. Porque o resto do dia, é tempo passado a trabalhar, e é de trabalho que falamos, aqui ou na China! E dou cada vez mais valor ao tempo de preparação do jantar - continuo a alimentar o sonho de o poder fazer com tempo, e desejo poder confeccioná-lo antes das 20H, mas parece que isso só é possível trabalhando na função pública. Dou cada vez mais valor ao jantar e ao serão passado no lar. Com o computador desligado. Mas quero mais, quero mudar! Não é desporto, não é físico sequer. Antes do Verão, achei que o princípio dessa mudança podia passar pela compra de uma planta lá para casa, que me fizesse companhia, que me desse alguma responsabilização pela mesma, mas que não desse demasiado trabalho, claro, que não me quero tornar dependente, e se não tenho animais, é para evitar isso mesmo! Por isso, comprei uma Kalanchoe, que comprei sem saber sequer como se chamava. Na verdade, só no dia seguinte é que liguei para a florista para perguntar afinal que planta tinha comprado. Uma Kalanchoe ou também chamada flor-da-fortuna, uma planta com flores pequeninas. Flores que escolhi cor-de-rosa, mas que fiquei apaixonada pelo vermelho e pelo azul-bébé. Como é da familia dos cactos, e as folhas armazenam água, precisa de muito pouca água, e apenas uma vez por semana. O ideal. No fundo, um primeiro passo para vir a adquirir um bonsai e mudar - aí sim - de vida! O problema é que ainda não reconheço os sinais da minha pequena flor. Neste momento, não consigo perceber se ela tem sede, ou se as suas folhas estão a apodrecer com excesso de água. Haverá cursos para o efeito?... Entretanto, as flores caíram, uma vez que só dão o ar da sua graça duas vezes por ano. E bom, continuo a achar que uma flor de estufa em casa, é um bom princípio de qualquer coisa.
De resto, este fim-de-semana foi de vindimas, e se há coisa que eu gosto, é de vindimas! Também foi fim-de-semana de Chocalhos, em Alpedrinha, com as amigas... Qual Bairro Alto! E como a partir de agora, decidi que vou fazer muitas coisas que gosto, é possível que venha a escrever por aqui mais vezes. Não se sabe!
É geral: em Setembro, as coisas mudam... A ver vamos.

sábado, 16 de julho de 2011

A persistência da memória...

É uma ditadura. Assim como o tempo. Angustiante e constringente.

 "A Persistência da Memória" - 1931 - Salvador Dalí

terça-feira, 5 de julho de 2011

Quadras (Fernando Pessoa)

Na voz de Camané:


O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p´ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há-de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P´ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

E se eu te desse a minha vida?

Poema: Álvaro de Campos
Música: Mário Laginha

Cristina Branco (duet with Jorge Palma)


- Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
- Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
- Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
- (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
- E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
- Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
- Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
- Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

domingo, 3 de julho de 2011

Não sou ateniense nem grego

Não sou nem ateniense, nem grego,
mas sim um cidadão do mundo.
                                          Sócrates

No outro dia, por alturas do 25 de Abril, ouvi Otelo Saraiva de Carvalho admitir com todas as letras que se soubesse como o país ia ficar actualmente, não teria realizado o 25 de Abril. Fiquei preocupada. Mas como sempre, uma simples frase apanhada do ar quase nunca quer dizer aquilo que parece. Uns dias depois em novo tempo de antena explicou afinal, que aquilo em que ele acreditava e ainda hoje gostaria de ver realizada era uma democracia directa. Daí a sua desilusão. Pois. Democracia directa. Abaixo a pobreza... Voz ao povo... Poder para todos nós!
A verdade é que quando se tenta dar a voz a todos, nenhuma voz se faz ouvir. Quando todos podem mandar, ninguém manda nada. O pessoal gosta é de divagar, mandar bitaites, fazer pela sua vidinha, e muito raramente alguém gosta de decidir o seu próprio destino. Quanto mais o dos outros... Bastará pensar em experiências simples de democracia directa. Na maior parte das vezes são uma perda de tempo, de eficiência. Se perguntarmos a uma turma como vamos dar hoje a matéria, que resultado vamos obter? Se nos juntarmos com um grupo de 50 pessoas e dissermos "vamos fazer um convívio?", a discussão pode durar mais de vinte minutos (sendo optimista), atendendo à exposição dos motivos pessoais de quem se quiser pronunciar sobre o assunto. Sim, porque haverá sempre os mais tímidos que preferem que os outros falem por eles. Como na política, aqueles que preferem ficar alheados de tudo, como se nada lhes dissesse respeito. Depressa surgem intervenções de quem quer impor a sua 'ditadura', do género "Eu não poderei estar presente, porque não me vai dar jeito nenhum, logo, acho que não deve existir convívio para ninguém". Passado o tempo de discussão, decide-se: Faz-se um convívio, aberto a todos, e vai quem quiser! Alguém decide. Decide por todos. E bem! E se perguntarmos "Como fazer o convivio?" As mesmas 50 pessoas são então capazes de se debruçar sobre o assunto, mas alguém terá que decidir. É por estas e por outras razões que entendo que a democracia tem limites. Já defendia a Manuela Ferreira Leite, ou por momentos lhe passou pela cabeça, uma suspensão da democracia, e que na verdade isto em meia dúzia de meses a coisa resolvia-se! Na verdade, a suspensão da democracia está aí, no terreno, mas talvez por um período mais prolongado, com as medidas do FMI, e nem por isso há qualquer legitimidade representativa com a qual Portugal se identifique. Mas a democracia é isto. Democracia é aceitar que 28% de portugueses tenham votado PS, estando conscientes que se todos o fizessem, José Sócrates continuava no poder. Democracia é haver portugueses que, conscientemente, preferiam José Sócrates ao poder porque "sim, ele é vigarista, mas pelo menos a ele já o conhecemos" /!\. No entanto, essas pessoas fizeram-se ouvir, na percentagem devida, é certo.
De resto, toda a gente sabe que o pior que há é o fundamentalismo, o radicalismo de posições, sejam elas quais forem. No socialismo. Na religião. Na democracia. É por isso que eu abomino qualquer posição, ou mesmo uma opinião levada ao extremo e acho que a democracia tem limites.
Em suma, e sem levar a sério as minhas próprias palavras... A Democracia nasceu em Atenas e hoje a Grécia está como está...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Não me trates doutor

Como é rematado neste texto, "o hábito do sôtor é a prova de que este país, mesmo à beira da ruína, prefere naufragar de fato e gravata a salvar-se de fato-macaco."

terça-feira, 7 de junho de 2011

Folk - Pop directamente da Noruega, adoooro!

Kings of Convenience - I'd rather dance with you

 I'd rather dance with you than talk with you
So why don't we just move into the other room
There's space for us to shake, and hey, I like this tune
Even if I could hear what you said
I doubt my reply would be interesting for you to hear
Because I haven't read a single book all year
And the only film I saw, I didn't like it at all
I'd rather dance, I'd rather dance than talk with you

Kings of Convenience - Homesick

I lose some sales, and my boss won't be happy. But i can't stop listening to the sound of two soft voices blended in perfection, from the reels of this record that i found.
Every day there's a boy in the mirror asking me: what are you doing here? Finding more that previous motifs growing increasingly unclear.
I travelled far and i burned all the bridges. I belived as sooned as i hit land all the other options held before me wither in the light of my plan.
So i lose some sales, and my boss won't be happy. But there's only one thing on my mind, searching boxes underneath the counter, on a chance that on a tape i'd find.
A song for someone who needs somewhere to long for.
Homesick
Cause i no longer know
Where home is

Kings of Convenience - Me in You

And I'm watching you know.
I see you building the castle with one hand
while tearing down another with the other.

Kings of Convenience - Mrs. Cold


Hey baby, Mrs. Cold. Acting so tough, didn't know you had it in you so be hurt at all. You waited too long. You should've hook me, before I put my raincoat on.
When can I get it? When can I see? You were fronting because... You knew you'd find yourself vulnerable around me. When can I get it? When can I see? You feel vulnerable around me.
Hey, baby, whats going on? We lost control and you lost your tongue. You lost me. Deaf in my ear. Nothing you can say is gonna change the way I feel.
When can I get it? When can I see? You were fronting because... You knew you find yourself vulnerable around me.
When can I get it? When can I see? I step too close to your boundaries....
You wanted nobody around to see. You feel vulnerable around me.
Hey baby,
What is love?
It was just a game.
We both played and we cant get enough of.

domingo, 5 de junho de 2011

Um jeito de rezar


Um pobre camponês regressava ao fim da tarde a sua casa depois de um dia de trabalho. De repente lembrou-se que não trazia consigo o seu livro de orações. encontrava-se no meio do bosque e tinha-se desprendido uma roda da sua carroça.
O pobre homem estava aflito pensando que nesse dia não ia poder recitar as suas preces. Então rezou assim: “Senhor, cometi uma grande estupidez. Saí de casa sem o meu livro de orações. A minha memória é tão pouca que sem ele não sei rezar. De modo que vou recitar muito devagar o alfabeto cinco vezes seguidas. e Tu, que conheces todas as orações, podes juntar as letras e formar as preces que eu não recordo.”
E Deus disse aos seus anjos: “De todas as orações que escutei hoje, esta foi sem dúvida alguma, a melhor. Uma oração que brotou de um coração humilde e sincero”.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Adeus... a sequela!


Sem querer repetir, porque este poema já teve lugar neste blogue, e sem querer passar a ideia de que tenho pouca cultura poética, simplesmente porque é o meu favorito. É que um poema é bom quando consegue ser transversal às várias situações e sentidos que a vida tem, e este... vem sempre a propósito. Sempre.
Porque pese embora se refira ao adeus de uma relação, ele mantém-se presente no dia-a-dia. Ele reflecte aquilo que de melhor tem um namoro, mas aquilo que é preciso evitar a todo o custo, para que não acabe. É preciso que as palavras não se gastem por serem repetidas tantas vezes. Um pedido de desculpas repetido. Um não que é dito constantemente. Um amo-te que perde sentido. Um quero estar contigo que soa a banalidade. Um logo se vê que acaba por não ser devidamente resolvido. Um dia de trabalho que é interrompido com um telefonema de um beijo rotineiro. O tempo que ao fim-do-dia é todo pouco para descansar. A telenovela. As notícias. O facebook. O passeio adiado......
Por isso, vou reproduzir aqui o poema, o meu preferido, mas em texto corrido, porque o importante não é a forma mas aquilo que o sentido das palavras desperta em cada um de nós.

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, e o que nos ficou não chega para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, gastámos as mãos à força de as apertarmos, gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; era como se todas as coisas fossem minhas: quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava.
Acreditava, porque ao teu lado todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos, era no tempo em que o teu corpo era um aquário, era no tempo em que os meus olhos eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco mas é verdade, uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, já não se passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, tenho a certeza de que todas as coisas estremeciam só de murmurar o teu nome no silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.
Eugénio de Andrade

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Informação para todos!


Em conversa-de-domingo-a-seguir-à-missa, na faixa etária dos 85 para cima, e em inicio de campanha eleitoral, fala-se de política. Desde as vizinhas que não vão votar, porque nunca foram, desde o tempo em que os maridos o faziam por elas, por lei, até àquelas que acompanham os boatos antigos sobre a vida pessoal e amorosa de José Sócrates, a verdade é que só não está informado quem não quer.
Nisto... 
"Parece-me que aquele que lá anda a falar melhor... é o Paulo Portas"

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Mistério admirável da nossa fé


Pergunto-me (quase) todos os dias pelo mistério admirável da nossa fé - Fátima é para mim um desses mistérios. Um mistério dos dias de hoje. A ideia era escrever um texto sobre as centenas de peregrinos que vi na estrada esta semana na zona de Coimbra e Torres Novas, mas a imagem de Nossa Senhora de Fátima quase que me obriga a restringir-me ao silêncio. O melhor dos silêncios. O silêncio do crente.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Hoje não.

Um dia vou acreditar nos politicos. Hoje não.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Portugal

Tiveste gente de muita coragem, e acreditaste na tua mensagem. Foste ganhando terreno, e foste perdendo a memória. Já tinhas meio mundo na mão. Quiseste impor a tua religião, e acabaste por perder a liberdade, a caminho da glória.

Ai, Portugal, Portugal (...)

Tiveste muita carta para bater. Quem joga deve aprender a perder, que a sorte nunca vem só, quando bate à nossa porta. Esbanjaste muita vida nas apostas, e agora trazes o desgosto às costas. Não se pode estar direito, quando se tem a espinha torta.

Ai, Portugal, Portugal (...)

Fizeste cegos de quem olhos tinha, quiseste pôr toda a gente na linha. Trocaste a alma e o coração pela ponta das tuas lanças. Difamaste quem verdades dizia. Confundiste amor com pornografia. E depois perdeste o gosto de brincar com as tuas crianças.

Ai Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Jorge Palma

domingo, 24 de abril de 2011

Estar cativado é estar preso... e o amor é uma prisão.

- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
- Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exactamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo... Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... Cativa-me! Disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
- Que é preciso fazer? Perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais.
- Que é um ritual? Perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. (...)
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ai! – Exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua, disse o principezinho. Eu não te queria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Pois quis.
- Mas agora vais-te pôr a chorar!
- Pois vou
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! Disse a raposa. Por causa da cor do trigo… Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo. (...)
- Adeus...
- Adeus, disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
O essencial é invisível para os olhos – repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... Repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade, disse a raposa. Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa...
Excerto de "O Principezinho", de Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Este é um país rico, e um país de ricos.

Em suma, um rico país. Andamos todos alegres porque vamos passar 4 dias sem fazer nenhum. Isto na pior das hipóteses. Meio país já parou na quinta feira santa, porque é santa, e porque o Sócrates é um fixe!
1. Na quinta-feira-santa saí mais cedo do trabalho, e fui a correr para a cabeleireira a fim de enfim, dar assistência à minha necessidade fútil de ficar mais leve e preparar-me, também eu, para a Passagem que é a Páscoa. Fiz 3 minutos a pé e lá estava eu em frente ao salão da cabeleireira do costume, que tinha a porta aberta, mas que não faz marcações e atende por ordem de chegada. Acontece que... já não me atenderam. Pelo menos 4 cabeleireiras a trabalhar, duas pessoas por atender, e para mim, "já é um pouco tarde, 10 para as 7..." Claro que não consegui lidar muito bem com a frustração de quem passou um dia inteiro a planear um corte de cabelo fresco para a Primavera, sobretudo num dia escuro em que não parou de chover um segundo. Pelo que, nesse momento de névoa em cima da minha cabeça e invadida por um espírito de obsessão, ainda insisti, dizendo que era uma coisa muito simples e muito rápida. Estupidamente, claro.
2. Peguei no carro, e procurei outra cabeleireira perto de casa, cheguei por volta das 7h e já se encontrava fechada.
3. Por fim, última tentativa, 50 metros a pé e encontro um salão aberto, uma cliente a ser atendida por uma cabeleireira, e a outra sentada ao balcão, que me diz que já é tarde, e que se fosse há 10 minutos atrás era possivel.
Está benzinho este país, sentado ao balcão, à espara da hora de saída. Só que entretanto, acho que foi de férias... E, como diria o Mário Soares, nós somos todos uns fixes, como o Sócrates, estão a ver.

P.S.- Em conversa com uma amiga minha, na qual manifestava a minha indignação (!), ela diz-me que não tenho razão absolutamente nenhuma, e que ninguém tem a obrigação de me cortar o cabelo se passar das 7h da tarde.
Será de esquerda ou de direita?! :)

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Em 1989 era assim... Em 1910 era assim... Em 2011 é assim...

Passado exactamente meio ano desde o último post neste blogue, eis-me aqui. Este meio ano passou rápido, rápido. Passou a correr, entre a contagem de prazos e o cumprimento dos mesmos. E o próximo meio ano apresenta-se ainda mais preenchido. A vida não pára. Passa por mim diáriamente, sem que eu tenha noção da sua velocidade, e é a este ritmo que sou chamada a agir, e a tomar partido. Sou chamada a todo o momento a não ficar indiferente. E por vezes é tudo o que quero. Ser um vegetal, um nada, um ser não pensante. A quem ninguém pergunta absolutamente nada.
E às vezes é tão melhor fechar os olhos ao que está a acontecer à nossa volta. Vivemos num país adormecido, dormente, e não é de agora. Um país triste. Quanto a mim, pelo menos, tenho estado um bocadinho deprimida desde que o governo caiu. É que pelo menos enquanto o governo estava de pé, existia toda uma aparência de que as coisas estavam bem, as coisas iam indo. Depois da queda governo, mas não necessariamente por causa dessa queda, senti-nos a todos em queda livre. Grandes discussões constitucionalistas acerca da legitimidade do governo de gestão pedir ajuda externa. Por ser uma inevitabilidade. Por fazer parte da queda. Costuma dizer-se que 'quem está no convento é que sabe o que vai lá dentro', e o governo por enquanto ainda em funções era o único que podia prever que dia faltaria dinheiro na carteira do Estado, até onde aguentariam as contas públicas sem que faltasse dinheiro. De qualquer modo, qualquer pessoa atenta percebe que a bancarrota chegou. De qualquer modo, a entrevista dada pelo primeiro-ministro na sua residência oficial há dois dias atrás no sentido de negar a possibilidade de ajuda externa, e da sua oposição à mesma, era irreal, eleitoralista, falsa, calculista e de resto inqualificável.
Não importa. Estou deprimida. Sobretudo porque, mais do que na carteira do Estado, vai faltar o dinheiro na carteira de todos nós.

domingo, 3 de outubro de 2010

Será egoísta o amor? nah!


Todos temos requisitos mais ou menos apertados para a escolha do amor da nossa vida. Os meus requisitos, para além de uma extrema rectidão de carácter e de um apurado sentido de humor, - como se isso fosse pouco - eram muito claros:
a) ser do Sporting! porque tenho a ideia de que os sportinguistas são boas pessoas, sabem sofrer, são persistentes, em suma, podemos vibrar com o mesmo golo, no mesmo sofá e com umas panquecas à frente!
b) tocar guitarra! se for guitarra portuguesa?! melhor ainda! que goste de música, de fado, e faça solos de guitarra só para mim.

Isto, na genialidade de Fernado Pessoa, é o seguinte:
«Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.»
«No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa.»