"- E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão..."
Os Maias

terça-feira, 4 de maio de 2010

Intemporal

Três minutos e meio. Eis o tempo que vale a pena dispensar para ver e ouvir até ao fim MONTE LUNAI. O álbum 'Intemporal' foi apresentado em Novembro na estação do Oriente. Ao vivo, os Monte Lunai são uma maravilha. No entanto, é com este vídeo que o transporte acontece.

Jam no Carmo

Sentava-me.
Os pés, somente, e os ombros, marcavam o compasso e balanceavam o ritmo com que a melodia enchia aquele espaço.
Admirava o baile tal como ele acontece. Admirava quem faz dele aquilo que ele é. Sou impelida a sorrir.
Recuperava mentalmente os tempos de antigamente, onde tudo era tão igual aos dias de hoje, igual em rituais, brincadeiras, sorrisos e conversas. Igual nas pessoas, nos interesses, na dança e na música.
Transporto-me realmente para outro tempo, mas exactamente no mesmo espaço, o largo do Carmo.
Anuncia-se o nome da música que aí vem, "a saia da carolina", organizam-se todos, e mal se faz sentir o violino, a magia dos sorrisos traduz-se em sequência: primeiro é uma postura, depois é a uma posição, depois são passos e rodopios simétricos numa magia que enche o meu coração.
Fico completamente contagiada pela vontade de dançar como eles, vou para a roda e, meio atabalhoada, lá ando de um lado para o outro sem destoar, prometendo, pela sexagésima vez, a mim mesma que irei ao primeiro workshop de danças tradicionais que tiver conhecimento. Ou ao Andanças...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Vou com as aves

POEMA À MÃE

 No mais fundo de ti
Eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou

O menino adormecido
No fundo dos teus olhos.

Tudo porque ignoras

Que há leitos onde o frio não se demora
E noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

São duras, mãe,
E o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas

Que apertava junto ao coração
No retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,

Talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;

Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
Que todo o meu corpo cresceu,
E até o meu coração
Ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -

Às vezes ainda sou o menino
Que adormeceu nos teus olhos;

Ainda aperto contra o coração

Rosas tão brancas
Como as que tens na moldura;

Ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa
No meio do laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,

E todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
Dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves. 

Eugénio de Andrade

domingo, 11 de abril de 2010

Caritas


A CARIDADE DE CRISTO NOS IMPELE [...]
(2Cor 5,14)

A palavra caridade está muito ligada à fé cristã e aproxima-se de uma outra: a solidariedade. São no entanto diferentes. Etimologicamente, caridade deriva de 'caritas', que significa Amor. Para mim, tem portanto intrínseco algo mais do que 'dar uma esmola'. Importa a atenção com o coração dos outros e com as suas dificuldades, e a melhor parte é que isso pode realizar-se mesmo sem a ajuda monetária.
Eu acredito num Deus que é amor,
'Deus Caritas est', e acredito que cada um de nós pode ter a mesma caridade e atenção para com os problemas que nos são mais próximas, só assim viveremos em amor.
Deixo aqui o testemunho que tive hoje:


"No convite para a minha ordenação sacerdotal escolhi uma frase de São Paulo que diz: A Caridade de Cristo nos impele [...] (2Cor 5,14). É a caridade de Cristo, a Misericórdia do pai, que nos impele, que nos empurra e nos envia pelo mundo fora. É a força de Deus que me sustenta e me faz caminhar. Não obstante os meus limites e imperfeições, o amor de Deus envia-me continuamente.
(...) tenho de falar-vos da personagem dos evangelhos com quem mais me identifico. Que é para mim a figura do sacerdote. Não é ninguém conhecido, nem sequer sabemos o nome dele. É alguém insignificante, não desempenhou nenhum papel relevante. É uma criança, um simples miúdo. Aparece quando se fala da multiplicação dos pães. Quando Jesus diz aos apóstolos para darem de comer à multidão, André diz: "Há aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos." Este miúdo estava com a multidão. Foi o único a levar farnel.
(...) Ele estava contente por ali estar, admirava tudo o que se estava a passar e agora ia comer o seu farnel. É aí que lhe pedem para oferecer o que tanto gostava. Mas ele não hesita: o Mestre pede-lhe o farnel. Pela admiração que tem por Jesus oferece-lhe tudo o que tem. Certamente pensando: "o que é que ele irá fazer com os meus cinco pães e os dois peixes". E de facto, o que aconteceu foi um dos maiores milagres de Jesus: a multiplicação dos pães.
Para mim, ser sacerdote é oferecer a minha vida, o que sou, as minhas acções, os meus limites, o que faço, o que deixei de fazer, a vida das pessoas, os problemas, oferecer tudo isso a Deus. Sobretudo entregar a Deus tudo aquilo que mais amo. Não se perde, mas ganha-se de forma multiplicada."

Pe. José Maria
(pároco de Alverca,
que hoje se despedia para uma missão em Washington)





Unnatural selection - MUSE

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Estrada Real


(clicar para ver imagem)

Era pela serra do Açor que passava a Estrada Real. Situemo-nos. A serra do Açor integra a Cordilheira Central, a par da serra da Lousã e da serra da Estrela e abrange os concelhos de Arganil, Oliveira do Hospital e Tábua. O seu ponto mais alto está a 1400 metros de altitude, no Alto de Ceira.
A Estrada Real, hoje praticamente destruida, fazia, em tempos idos, a ligação entre Coimbra e Covilhã. Era ao cimo do Piódão que tudo passava: passavam os carros de bois dos mercadores que traziam do litoral o peixe e o sal, para levarem no regresso a carne, o queijo e os lanifícios destas terras do interior. Mas a ideia que fica é que as gentes destas terras sempre foram esquecidas, resumindo-se à riqueza da terra e das águas que por ali correm, à riqueza do seu trabalho para as sementeiras anuais que serviam para o seu sustento. Outros certamente à riqueza feudal pela posse das terras. No museu do Piódão, faz-se alusão às mulheres que demoravam dias a pé pela Estrada Real para levarem os ovos "fresquinhos" à cidade da Covilhã. Mas no fundo, a localização no fundo de uma serra era já sinónimo de isolamento, solidão, exclusão. Diz-se que era um local de eleição para refúgio de muitos foragidos da justiça. Diz-se que ali se acolheu o fidalgo Diogo Lopes Pacheco, assassino de D. Inês de Castro, o único que escapou à fúria de D. Pedro. Diz-se que ali se refugiaram figuras muito portuguesas, mitos e mistos heróis e criminosos como João Brandão e José do Telhado!
Só na década de 70 é que o Piódão se torna acessível com a abertura de uma estrada até à aldeia. Antes disso, a única estrada existente terminava a cerca de 12 Km, e nem sequer os carros de bois podiam chegar lá. Hoje, o alcatrão leva-nos até ao Piódão, mas as mesmas estradas serviram, inevitavelmente, para levar os filhos da terra.




"Com o protesto do corpo doente pelos safanões tormentosos da longa caminhada, vim aqui despedir-me do Portugal primevo. Já o diz das outras imagens da sua configuração adulta. Faltava-me esta do ovo embrionário"
Miguel Torga

sábado, 3 de abril de 2010

"Quando não há amor, não há tolerância"


Por vezes existem frases ditas no meio de uma conversa banal que, de tão óbvias, nos fazem pensar. Há como que leis escondidas a reger a nossa vida mas que nós ignoramos. De propósito. Fazemos de conta que não estão lá. Fazemos de conta que nada muda, nada acontece, e que dominamos a nossa vida, mesmo não fazendo nada para lhe mudar o rumo. Esse é o nosso primeiro erro. Pensar que a vida é uma fatalidade. Não o é. O amor também não é uma fatalidade e a tolerância muito menos. Pelo contrário, é tudo um jogo, um encadeado de consequências. És tu que escolhes! (Claro, a parte da vida mais parecida com um jogo é que há sempre uma parte que é aleatória, mas no essencial, se saltas na altura certa, apanhas o cogumelo!)
Assim que acaba o amor entre duas pessoas, deixa de haver tolerância, a vida torna-se aborrecida e a paciência para tudo o que diz respeito ao outro é um autêntico sacrifício. A presença do outro é indiferente e perdemos toda a simpatia e doçura que existiu. Mas se isto é verdade, não é possível amar alguém que não seja tolerante, ou que deixe de um momento para o outro, de o ser. Evidente: É a intolerância que gera intolerância. Que incapacita as pessoas para o diálogo, e a falta de comunicação cria insegurança, distância, insegurança. Mesmo quando se ama.
Pode parecer redundante, mas não há aqui qualquer semelhança com o título desta mensagem. Eu quero dominar a minha vida e por isso hei-de ser mais tolerante.
Sei, desde pequenina, que com vinagre não se apanham moscas, mas antes com mel, doçura e compaciência - (palavra inventada agora que apenas quer dizer que não se pode ser paciente sozinho, assim como nunca ninguém que se diz teimoso é teimoso sozinho, a não ser que seja maluquinho e isso tem outro nome) - dizia eu: Só se combate a intolerância com muito Amor. Amo-te!

Uma Feliz Páscoa. Aleluia. Aleluia.

sexta-feira, 26 de março de 2010

É notícia



Lisboa foi eleita o “Melhor Destino europeu de 2010 - A Escolha dos Consumidores”, deixando para trás Londres, Barcelona, Amesterdão, Praga e Copenhaga! Os critérios de eleição do vencedor incidiram em questões como a qualidade de vida e a oferta cultural e turística.
Fonte: ionline

domingo, 21 de março de 2010

domingo, 7 de março de 2010

Emenda



Para o Bastonário da O.A., os licenciados de Bolonha são... nada mais nada menos do que... bacharéis travestidos.
"Há muita gente preocupada mas tem de ir [a exame]. Porque podem entrar para estágio licenciados em Direito, mas não bacharéis travestidos de licenciados, o exame nacional de acesso vai ser feito para os licenciados com menos de cinco anos" diz Marinho Pinto à Lusa.
MAS O QUE ELE DIZ NÃO SE ESCREVE!

E para que eu própria não me esqueça de tudo isto, pelo menos até ao próximo dia 30:
. direito constitucional,
. direito criminal,
. direito administrativo,
. direito comercial,
. direito fiscal,
. direito das obrigações,
. direito das sucessões,
. direitos reais,
. direito da família,
. direito do trabalho (e ainda...)
. direito processual penal,
. direito processual civil,
. processo do trabalho,
. procedimento administrativo,
. processo tributário.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Bolonhesa


O mundo dos juristas subdivide-se, hoje, tal como a Biblia, em duas eras: a.B. e d.B., isto é, antes e depois de Bolonha. Agora existem licenciados à bolonhesa sobre os quais recai o estigma da nova Era.
A Declaração de Bolonha, assinada em Junho de 1999, por 29 Estados europeus, propôs-se concretizar um verdadeiro "Espaço Europeu de Ensino Superior". Como? Ponto 1. Através de um sistema de graus de equivalência semelhantes em todos os países, de modo a que uma licenciatura se resuma a um xis número de créditos, cá e lá... No entanto, a verdade é que um curso será sempre diferente consoante for tirado cá ou lá, nesta ou naquela Universidade, e a instituição de ensino continuará a ser o que realmente importa. Ponto 2. Também proclamada continua a ser a mobilidade internacional dos estudantes. No entanto, continua a representar uma minoria, e a qualidade de todos os estabelecimentos de ensino não é, de resto, uniforme.

Era uma vez uma Faculdade de Direito, a maior e a melhor de todas as faculdades de Direito de um país. À medida que o Governo aprovava leis e implementava medidas que obrigavam a reestruturar os cursos, aquela Faculdade de Direito tinha muitas reservas ao processo de Bolonha e continuava a acreditar que a ela nada seria exigido. Aquela faculdade assistiu, impavidamente, às Reformas dos cursos de Direito de todas as outras faculdades daquele país, públicas e privadas. Vivia-se então a esperança (quase que uma fé) de que o Curso de Direito ia ser uma excepção a Bolonha e se manteriam os 5 anos de licenciatura. Isso não foi possível. Estava eu no fim do 2º ano. Faltavam-me portanto 3 para terminar o curso. Acabei por fazê-los apenas em 2 anos, e fomos os primeiros licenciados da FDL de 4 anos.
Ter feito 2 anos em regime antigo e 2 anos em regime de Bolonha faz-me sentir assim uma espécie de João Baptista. Aquele que anunciou o nascimento de Jesus e depois foi seu seguidor, tendo vivido, como tantos outros, antes e depois de Cristo.
"Artigo 9.º-A
Exame Nacional de Acesso ao Estágio
1 - A inscrição preparatória dos candidatos que tenham obtido a sua licenciatura após o Processo de Bolonha, será antecedida de um exame de acesso ao estágio, com garantia de anonimato, organizado a nível nacional pala CNA, ou por quem o Conselho Geral designar.
2 - O exame nacional de acesso será constituido por uma prova escrita e incidirá sobre uma das seguintes disciplinas: de direito constitucional, direito criminal, direito administrativo, direito comercial, direito fiscal, direito das obrigações, direito das sucessões, direitos reais, direito da família, direito do trabalho, e ainda, direito processual penal, direito processual civil, processo do trabalho, procedimento administrativo e processo tributário."

Para este e para outros efeitos,
eu sou uma licenciada à bolonhesa,
e ainda me hei-de orgulhar disso...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

DESCOBRINDO


Já lá vai muito tempo que penso em escrever aqui qualquer coisa sobre os modos de associativismo, e sobre aquelas pessoas que estão sempre do lado de fora, as pessoas que desdenham o projecto alheio como se não houvesse amanhã, e que no fundinho de si, desejam que nada construido pelos outros possa seguir em frente. Quem conhece a realidade de Associações em meios pequenos, sejam eles rurais ou urbanos, sabe do que estou a falar, e consegue idealizar na perfeição o tipo de pessoas a que me refiro. Os do Contra! Mas vou deixar este tema para uma outra altura.
Hoje, neste espaço, não posso deixar de divulgar um projecto associativo recente encabeçado por um colaborador deste blogue. Um amigo com os pés assentes na Terra e cujas suas próprias raízes não menospreza. Nos dias de hoje, há que saber dar importância às pessoas que se mexem e que se movem por ideias! O trabalho de associativismo, o dinamismo por aquilo em que se acredita, e tantas vezes se acredita sozinho!, é uma qualidade inestimável. Um exemplo!

A DESCOBRINDO - ASSOCIAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL apresenta-se através do numero zero da sua Revista, que fiz questão de receber em minha casa: Solstício. Apresenta-se para já também em Blogue. A DESCOBRINDO é uma associação sem fins lucrativos com sede na Soalheira e que pretende actuar no território sul da Serra da Gardunha, ali abarcando 12 freguesias, a saber: Alpedrinha, Atalaia do Campo, Castelo Novo, Lardosa, Louriçal do Campo, Mata da Rainha, Orca, Póvoa da Atalaia, Póvoa do Rio de Moinhos, São Vicente da Beira, Soalheira e Vale de Prazeres. A DESCOBRINDO propõe-se motivar e formar a população para a criação de projectos inovadores, valorizando a identidade dos recursos, os lugares, produtos e saberes daquela região. O plano de intervenção passa assim pela promoção do património natural, histórico, cultural, agrícola, social e humano, daquela que consideram ser a identidade da verdadeira Beira Baixa.

Como eu não sou do Contra, desejo aqui sinceramente toda a sorte para este projecto!
E como não podia deixar de ser, fica aqui aquele que é, para mim, o mais recente "Hino" de homenagem e de ânimo ao Associativismo e às ideias que o fazem viver, sabendo que ele é feito de altos e baixos, de avanços e recuos, mas sempre da vontade de quem acredita em si e nos outros.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Persisto

Persisto,insisto
Nesta forma complexa de existir
Olho à volta à procura de mim
E não estou lá, nem aqui

Então tu vens
Amor que eu não conheço
E mesmo chegando tarde de mais
Ao que resta de mim
O meu corpo é teu
Ou o que dele não pereceu
E esta noite sem fim
É loucura desmedida

Mas persisto, insisto
E chego ao fim
Acabo
E deste pó que ora sou
Hei-de um dia renascer.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

O Ignorante ousa mais

Foto: O IGNORANTE OUSA MAIS

Parece que "Fernão Veloso" (quem é Fernão Veloso??!) percorreu ruas e lugares em Janeiro de Cima, e que
conhece bem cada uma delas. Pela maravilhosa descrição e pelas fotografias, vale
a pena visitar esta ligação: O IGNORANTE OUSA MAIS.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Lês todos os livros que citas?!



Lês todos os livros que citas?
Ou citas todos os livros que lês?


Citações, frases feitas e já pensadas, "mastigadas". Como quando estudava no 6º ou 7º ano, altura em que me lembro de ler certas frases nos manuais, que me ficavam na cabeça de tal modo que repousavam direitinhas numa resposta de um teste, tal era a sabedoria adquirida. "Antigamente, as crianças eram uma fonte de receita para as famílias, hoje em dia são antes uma fonte de despesas..." era apenas um dos casos da disciplina de História e Geografia. Antigamente, quando? E o que é ser uma fonte de receitas? Acho que só hoje, aos 21/22 anos, altura em que ainda sou uma fonte de despesas, é que percebo o significado daquelas frases quando o meu pai me conta a sua própria história de vida, e a dos meus avós.
Penso ser apenas um exemplo de como funciona o conhecimento das pessoas normais, isto é, precisa de muito tempo para se consolidar. Raramente entendemos com toda a propriedade aquilo que lemos ou ouvimos pela primeira vez. Tenho tido nos últimos tempos o desafio da escrita de um trabalho académico e a tarefa de investigação até tem sido produtiva. O meu problema - para meu próprio espanto - é mesmo o trabalho de criação, de escrita. Iniciar um texto feito por mim, através necessariamente do meu modo - cru e tenrinho - de olhar para o conhecimento e sobretudo expressar por escrito as ideias sobre as quais já se debruçaram quase todos os doutores catedráticos. Uff! E em cada livro que aparece nas minhas referencias bibliográficas, fui beber apenas o que considerei essencial. Quando aparece já expressa uma das ideias que parece descrever exactamente o MEU entendimento, é como que uma ousadia invocá-lo. E discordar?! Discordar pode ser fácil mas juntar letras à máquina explicando as razões e depois imprimi-lo. Ui! Na verdade, a escrita demora sempre mais do tempo que eu tinha previsto para escrever, e a reflexão que vou fazendo também. As citações, devidamente identificadas, ajudam por isso a formar o raciocinio, sendo certo que será sempre a minha visão do (pouco) que conheço.

Partilha

Falemos. Não daquela partilha que ensinamos aos miúdos quando têm um novo brinquedo. Não daqueles actos de partilha, por solidariedade social, de que se fala sempre na época do Natal. Não, ainda, da partilha dos corpos. A minha teima hoje é um bocadinho (não muito) mais profunda. Pelo menos não é vísivel. Muito menos é palpável. São experiências, vivências e emoções partilhadas a dois.
Nada de grandes feitos, nada de muito (muito) diferente. Ontem decidimos atravessar o rio e ir até ali ao distrito de Coimbra para uma noite de fados (de Lisboa), e damo-nos conta que em possivelmente setenta a setenta e cinco por cento das nossas saídas, houve fado. Mas partilhar experiências, vivências e emoções não é nada fácil. E no entanto, eu quero beber do teu olhar, ver tudo com as tuas mãos, respirar as coisas diante de mim com a tua sensibilidade. A verdade é que oiço com a minha imaginação cada uma daquelas cantigas, e onde o fadista prolonga a voz com uma virgula repenicada, reina no meu coração o silêncio das guitarras e o trinar da melodia. Não importa a voz, importa o sentimento, e a prova disso é que o cantor tinha uma voz estonteante (qual Luciano Pavarotti), assim ao jeito dos fados de Coimbra, mas a técnica com que se preocupava a cantar não o deixavam - pareceu-me - sentir o que estava a fazer. Mas se o artista não consegue passar sentimento ao seu público não é por isso que deixamos de aproveitar o encanto que é a música ao vivo, com mais ou com menos esforço. É certo que quem canta não tem de corresponder ao modo como cada um sente. Ele será sempre - apenas e só - um intérprete de um poema e de uma música, e a música é quase sempre muito mais do que isso. Sei que também pensas assim. Sei porque estou ali, ao teu lado, e como que oiço os teus comentários quando olhamos um para o outro. E gosto tanto de ali estar. De nada havia de me valer um grande espectáculo, numa sala nobre, se a minha companhia não fosse a tua, e se não tivesses o modo de ser e o modo de estar que te conheço. Mas desta vez foi especialmente tranquilizante, promissor, estimulante, desafiante, e nada disto deixou de ser partilhado!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Alcoolemia

O Acórdão TRPorto considerou prova proibida a recolha de sangue sem o consentimento prévio de um motociclista a quem foi recolhida uma amostra para determinar o grau de alcoolemia, quando estava internado num hospital e num estado que o impedia de soprar no balão. O DL foi promulgado pelo Governo sem que a Assembleia da República lhe tenha concedido a respectiva autorização legislativa, pelo que se considera que tendo conteúdo inovatório, padece de inconstitucionalidade orgânica. Mas o mais extraordinário é que como se esta argumentação não bastasse, o T. vem aderir à argumentação da defesa do arguido, segundo a qual terá havido uma obtenção desleal do seu material biológico ao ter sido "omitido um procedimento essencial ao seu direito fundamental a um processo penal justo: o direito a saber que a recolha de sangue em causa era para efeitos de eventual responsabilização criminal". Qual a importância disto?! Na verdade, mesmo que superada aquela inconstitucionalidade, esta decisão abre portas e janelas: pode o arguido fazer valer o seu direito processual penal à não auto-incriminação.

«a colheita de sangue para análise do álcool no sangue do condutor sinistrado, embora praticado por um médico, não tem, em nosso entender, a natureza de acto médico em sentido estrito mas sim de um acto ou diligência de prova para efeitos de procedimento criminal. E tratando-se de um acto que viola a integridade física e tem como objectivo, uma possível incriminação do doente/sinistrado, é nosso entendimento de que o mesmo deve ser informado ou estar devidamente esclarecido do fim a que se destina a recolha do sangue.»

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Porque a Família é Sagrada


Porque no Natal celebramos a Vida. E porque acredito que algum dia, ainda que não no dia 25, nem à meia noite, nasceu um homem que se chamava Emanuel, que significa "Deus connosco" - Jesus de Nazaré. Que trazia uma mensagem universal, que a transmitiu ao povo onde se integrou. Na verdade, no Natal celebramos a vida de cada um de nós, e damos graças à família reunida. Natal não é enviar mensagens desenfreadamente aos contactos da lista telefónica. Natal é lembrar os amigos e pedir a Deus por eles. Natal não é um conjunto de etiquetas e embrulhos. Natal é começar a fazer filhózes à uma da madrugada para a família inteira, assim que a massa estiver finta, como acontece por tradição beirã em dias de festa. Não é Natal se não houver Amor. Natal é uma pausa na vidinha de todos os dias. Mas sobretudo, reviver a tradição. Gosto de ficar noite fora a contemplar as luzes do pinheiro de Natal. Quando era pequena lembro-me de tentar adormecer entre aquele misto de claridade e mistério. Gosto de lembrar as noites longas em volta da fogueira. Hoje o mistério mantém-se. Intacto.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Chi-a-do!

Para as alminhas mais distraídas, a Loja-das-Aldeias-do-Xisto-em-Lisboa está aberta desde 2006 - dois mil e seis - e fica bem perto da Sé, do CEJ e do Miradouro de Santa Luzia, enfim... no trajecto do Eléctrico 28! Para além da informação e postais de cada uma daquelas aldeias, encontram-se várias peças de artesanato, com a indicação da sua proveniência (coisas simples que nos são tão familiares, tais como as peças de linho da Casa das Tecedeiras), mas muito mais e para qualquer gosto.
Uns postais de (24) aldeias remotas, a natureza que inevitável e irremediavelmente envolve cada uma, a arquitectura que consegue, ainda que por breves momentos, transportar-nos para outro tempo - são (têm sido!!) capazes de despertar o interesse de qualquer pessoa que está a conhecer Lisboa pela primeira vez. Assim como, acredito eu, quem nunca dali tiver saído...
Hoje à tarde, com o frio que se fez sentir - anunciando o Natal, tal como eu o conheço - as ruas largas da Baixa-Chiado estavam especialmente cheias - tal como eu
gosto! - e de portugueses..

Ora, a Loja das Aldeias do Xisto, ela própria, desceu também até ao Chiado e aí permanecerá até ao dia 6 de Janeiro! Assim, fica apenas uma pontinha do Programa de Actividades Aldeias do Xisto nesta época Natalícia:
Todos os dias há chá com mel e licor para prova.
. 19 de Dezembro - "Oficina dos Objectos". Demonstração da produção artesanal de variados objectos artesanais, com base nas referências regionais.
. 22 de Dezembro - Tecelagem ao vivo com Sílvia Henriques: Tecedeira, da Aldeia do Xisto de Janeiro de Cima.
. 22 de Dezembro - Cestaria ao vivo com António Nunes dos Santos: Artesão de Alcongosta. Com cestaria em verga e castanho, além de Instrumentos Musicais.
. 22 de Dezembro - OCAIA Associação de Artes e Saberes (Grupo de Música Tradicional)
. 3 de Janeiro - Sorteio "Fim-de-semana na Aldeia do Xisto de Janeiro de Cima", às 14h.

Acho tudo isto delicioso.
Sou só eu?!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Virgem Suta

São dois e de Beja. Gostei da música e do conceito.
Só os descobri hoje ali no myspace (deles!)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Cantiga da boa gente

Três palmos de terra, com uma casa à beira,
E o Manel mais eu para vida inteira!
Ele e quatro filhos são tudo o que eu gosto,
Gente mais feliz não há neste mundo, aposto!

Vamos pra o trabalho, logo ao clarear,
E de sol a sol, vá demorejar,
Tenho a vida cheia, tenho a vida boa,
Que Deus sempre ajuda a quem é boa pessoa!

Quando chega a tarde, tarde tardezinha,
Já o jantar fumega na lareira da vizinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Os sinos ao longe dão Ave-Marias,
Reza-se a oração de todos os dias.
Menino Jesus, meu botão de rosa,
Faz que a minha gente não seja má nem vaidosa!
Menino Jesus, boquinha de riso,
Faz que a minha gente seja gente de juízo!

Acabada a reza, vai-se pra o jantar,
Se alguém bate à porta, também tem lugar,
Come do que há, tarde tardezinha,
Mesmo ali, à beira da lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Não invejo nada, nem quem tem dinheiro,
Pois pra trabalhar tem-se o mundo inteiro.
Basta só fazer o que se é capaz.
E a felicidade está naquilo que se faz.

E assim vou andando, com a graça de Deus,
Em paz e amor com todos os meus,
Trabalho não falta, todo santo dia,
Mas o coração, chega à noite, uma alegria!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Coffe time

Logo pela manhã, at coffe time, começo a ler o artigo do Pedro Lomba no Público sobre direitos da pessoa humana, direito à vida privada e as ameaças das novas tecnologias. Blá-blá-blá. Eis que chego a meio da notícia e não tive qualquer interesse em continuar a leitura. Coisas de estado de espírito e outras preocupações do momento. Momentos mais tarde, deparo-me com um papelinho na carteira com uma oferta, que indicava o meu número de telefone como minha identificação. Isto porque no dia anterior fui à telepizza, tendo feito previamente, por telefone, a minha encomenda (duas daquelas pizzas enormes com massa extra fina, gordurosas, sucolentas e gostosas). Mais tarde, na factura de compra, noto que com aquele simples telefonema impessoal, fizeram constar da factura o meu nome e a minha morada completa, para além, claro, do meu número de telefone. Isto porque aqui há uns meses pedi para me trazerem as pizzas a casa. Percebo o intuito de criar intimidade com os clientes, mas eu não gosto! Parece que a vida agora é assim, temos os nossos dados distribuidos com as pessoas com quem contactamos. Entretanto, não voltei a pegar no artigo que comecei a ler.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Começa hoje...

26, 27 e 28 de Novembro
Mostra Gastronómica Aldeias do Xisto, em Lisboa



O livro “Sabores da Aldeia - Carta Gastronómica das Aldeias do Xisto” vai ser a grande estrela na Mostra Gastronómica do Restaurante “Casa do Leão”, no Castelo de São Jorge em Lisboa, que decorre de 26 a 28 de Novembro.
Poderá assim provar uma ementa cuidadosamente seleccionada e elaborada pelo Chefe Leonel Barata, do Restaurante Fiado, de Janeiro de Cima (Fundão).
O II volume do Livro Máscara Ibérica será também apresentado a 26 de Novembro pelas 19h, na SALA OGIVAL do Castelo de São Jorge, em Lisboa. A par da apresentação do livro, poderão ser degustados produtos regionais das Adeias do Xisto. Sendo promovida a Mostra Gastronómicas das Aldeias do Xisto, no Restaurante “Casa do Leão”, no Castelo de S. Jorge, durante os dias 27 e 28 de Novembro. Numa parceria com as Pousadas de Portugal.
Fonte: AldeiasdoXisto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dress to work



Uma mulher bonita não passa despercebida. Uma mulher feia passa. Mas uma mulher que não queira passar despercebida, certamente conseguirá o seu objectivo, mesmo que não pelas melhores razões. A máxima a reter - aplicável sobretudo às mulheres, que não têm a facilidade (e ainda bem) de recorrer àquele código uniforme, da camisa, do fato e da gravata - é a seguinte: "Diz-me como te vestes e que calçado usas, dir-te-ei o nível de equilibrio emocional em que te encontras." Não tem somente que ver com bom gosto nem com o bom senso ou disposição com se se abre o armário, quando de manhã, no fundo, decidimos a imagem que queremos que marque o nosso dia, e aquela com que queremos que toda a gente fique de nós mesmos, assim que olhe para nós.
É preciso divulgar uma série de regras simples. Alguém que explique, por exemplo, que umas calças de ganga, rasgadas, com buracos, ainda para mais justas até ao fundo - como se vê por aí - não fica bem com um sapatinho de salto em bico, qualquer que seja a cor ou o feitio do sapato! O desequilíbrio nesta conjugação, para quem ousa sair assim à rua, é incompatível com uma cabeça arrumada, mostra toda a fragilidade de alguém que não percebe o lugar que lhe é reservado, e não percebe que gostar de A e de B, não significa que se possa juntar A mais B, ao estilo de laranja com leite antes de ir deitar. O segundo exemplo de desequilíbrio nesta meia estação, entre o Verão da tarde e o Inverno da manhã é juntar umas calças pelo joelho sem collans e aquele sapatinho que usamos no Verão, com aquele casaco de peles quentinho, que até nos faz ficar mais gordinhas. O bom senso, o frio/calor que se faz sentir e o próprio espelho de corpo inteiro impedem que alguém possa sair assim de casa. O último caso de desequilíbrio que agora me ocorre é um caso de desequilíbrio proprio sensu, trata-se de um desequilíbrio físico, motor, provocado naquelas mulheres que se movem dificilmente em cima de uns saltos, pondo um pé atrás do outro no chão, como se estivessem a aprender a caminhar. A confiança e a própria segurança de algumas mulheres deslinda-se assim, aos olhos de qualquer um, em coisas simples que vão muito para além do bom senso e do bom gosto.
De facto, existem mulheres que parecem não ter amigas. Será que as amigas daquelas mulheres não tem coragem para lhes dizer? Ou é uma questão de personalidade e a personalidade delas é assim tão forte (tão forte) que nem o espelho lá de casa as convence??!!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Formas de sentir

Os Limites do Sentido
O significado de uma palavra é a sua utilização na linguagem. Mas pode fazer muitas outras coisas para além de retratar a realidade. Onde se encontram os limites do nosso pensamento? Nos boatos? Um boato não é admissível como prova em tribunal, ao passo que muitas as vezes é a única prova em que um historiador pode e fundamenta criteriosamente as suas revelações. Não será a nossa vida entendida apenas pelo seu passado? O supremo paradoxo de todo o pensamento é esta tentativa de descobrir algo que o pensamento não pode pensar. SERÁ ASSIM NO AMOR ENTRE DUAS PESSOAS?

" Devemos passar em silêncio por aquilo que não podemos falar"
Ludwing Wittgenstein

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Chamaste-me?

- Chamaste?
- Não.
Alegrava-me, apesar de tudo, pensar que sim. Era como se afinal não caminhasse sozinha naquela rua escura e vazia. Os vizinhos daquelas casas pareciam adormecidos. Era noite, mas sentia no meu ouvido um murmurar secreto de alguém que quer começar o dia. Estava escuro e não conseguia encontrar a lua. Olho para o céu e reparo nao existirem estreles em cima daquela rua. Mais à frente, percebo que a rua está iluminada com uma janela entreaberta. Uma janela entreberta e uma luz de vela, que é um quase nada lá dentro, ao fundo, por detrás de uma cortina vermelha. É o único sinal luminoso que parece existir entre estas paredes brancas que delimitam a estrada por onde passo. Caminhas ao meu lado, mas a medo de fazer barulho, a medo de caminhar, a medo de estar ali perto de mim. A verdade é que nenhum de nós está sozinho e no entanto a cada vez que sustentas a respiração, a cada suspiro envergonhado, eu imagino uma frase que pudesse naquele momento sair do teu coração.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

SALVAR AS APARÊNCIAS

Em todas as tentativas para compreender o mundo, ou antes, as pessoas, é necessário não perder de vista o facto das causas finais das nossas interrogações. OU SEJA: Por natureza, também o homem é um animal em busca da felicidade, isto é, do seu equilibrio enquanto personalidade que o disfarce dos restantes animais, segundo o qual uma virtude é o ponto intermédio entre dois extremos, sendo cada um deles um vício! Por isso, a generosidade é o meio termo entre a devassidão e a maldade; a coragem entre a temeridade e a cobardia; o orgulho entre a vaidade e a auto-humilhação e a modéstia entre a imprudência e a timidez.

"OS FRACOS ESTARÃO, PORTANTO, ÁVIDOS DE JUSTIÇA E DE IGUALDADE, E OS FORTES NÃO DÃO IMPORTANCIA A NENHUMA DELAS"
Aristóteles

sábado, 24 de outubro de 2009


ENSINA-ME A VOAR

Eu sei que as leis e os decretos te ocupam bastante tempo... e mais ainda as outras coisinhas!
Mas "olha": Escreve, vai escrevendo, não deixes passar tantos dias sem dar notícias. É que na verdade, os teus pensamentos são um conforto em certos dias, quando julgamos não haver mais ninguém a querer voar como nós, E NÓS...SOMOS UM TODO, um todo desejado em partilhar. Da minha parte, e agora que desabafei, partilharei a partir de hoje as minhas desavenças filosóficas.

"POR NATUREZA TODOS OS HOMENS DESEJAM VOAR"
Leonardo da Vinci
És maravilhosa...