"- E que somos nós? - exclamou Ega. - Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão..."
Os Maias

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Lês todos os livros que citas?!



Lês todos os livros que citas?
Ou citas todos os livros que lês?


Citações, frases feitas e já pensadas, "mastigadas". Como quando estudava no 6º ou 7º ano, altura em que me lembro de ler certas frases nos manuais, que me ficavam na cabeça de tal modo que repousavam direitinhas numa resposta de um teste, tal era a sabedoria adquirida. "Antigamente, as crianças eram uma fonte de receita para as famílias, hoje em dia são antes uma fonte de despesas..." era apenas um dos casos da disciplina de História e Geografia. Antigamente, quando? E o que é ser uma fonte de receitas? Acho que só hoje, aos 21/22 anos, altura em que ainda sou uma fonte de despesas, é que percebo o significado daquelas frases quando o meu pai me conta a sua própria história de vida, e a dos meus avós.
Penso ser apenas um exemplo de como funciona o conhecimento das pessoas normais, isto é, precisa de muito tempo para se consolidar. Raramente entendemos com toda a propriedade aquilo que lemos ou ouvimos pela primeira vez. Tenho tido nos últimos tempos o desafio da escrita de um trabalho académico e a tarefa de investigação até tem sido produtiva. O meu problema - para meu próprio espanto - é mesmo o trabalho de criação, de escrita. Iniciar um texto feito por mim, através necessariamente do meu modo - cru e tenrinho - de olhar para o conhecimento e sobretudo expressar por escrito as ideias sobre as quais já se debruçaram quase todos os doutores catedráticos. Uff! E em cada livro que aparece nas minhas referencias bibliográficas, fui beber apenas o que considerei essencial. Quando aparece já expressa uma das ideias que parece descrever exactamente o MEU entendimento, é como que uma ousadia invocá-lo. E discordar?! Discordar pode ser fácil mas juntar letras à máquina explicando as razões e depois imprimi-lo. Ui! Na verdade, a escrita demora sempre mais do tempo que eu tinha previsto para escrever, e a reflexão que vou fazendo também. As citações, devidamente identificadas, ajudam por isso a formar o raciocinio, sendo certo que será sempre a minha visão do (pouco) que conheço.

Partilha

Falemos. Não daquela partilha que ensinamos aos miúdos quando têm um novo brinquedo. Não daqueles actos de partilha, por solidariedade social, de que se fala sempre na época do Natal. Não, ainda, da partilha dos corpos. A minha teima hoje é um bocadinho (não muito) mais profunda. Pelo menos não é vísivel. Muito menos é palpável. São experiências, vivências e emoções partilhadas a dois.
Nada de grandes feitos, nada de muito (muito) diferente. Ontem decidimos atravessar o rio e ir até ali ao distrito de Coimbra para uma noite de fados (de Lisboa), e damo-nos conta que em possivelmente setenta a setenta e cinco por cento das nossas saídas, houve fado. Mas partilhar experiências, vivências e emoções não é nada fácil. E no entanto, eu quero beber do teu olhar, ver tudo com as tuas mãos, respirar as coisas diante de mim com a tua sensibilidade. A verdade é que oiço com a minha imaginação cada uma daquelas cantigas, e onde o fadista prolonga a voz com uma virgula repenicada, reina no meu coração o silêncio das guitarras e o trinar da melodia. Não importa a voz, importa o sentimento, e a prova disso é que o cantor tinha uma voz estonteante (qual Luciano Pavarotti), assim ao jeito dos fados de Coimbra, mas a técnica com que se preocupava a cantar não o deixavam - pareceu-me - sentir o que estava a fazer. Mas se o artista não consegue passar sentimento ao seu público não é por isso que deixamos de aproveitar o encanto que é a música ao vivo, com mais ou com menos esforço. É certo que quem canta não tem de corresponder ao modo como cada um sente. Ele será sempre - apenas e só - um intérprete de um poema e de uma música, e a música é quase sempre muito mais do que isso. Sei que também pensas assim. Sei porque estou ali, ao teu lado, e como que oiço os teus comentários quando olhamos um para o outro. E gosto tanto de ali estar. De nada havia de me valer um grande espectáculo, numa sala nobre, se a minha companhia não fosse a tua, e se não tivesses o modo de ser e o modo de estar que te conheço. Mas desta vez foi especialmente tranquilizante, promissor, estimulante, desafiante, e nada disto deixou de ser partilhado!

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Alcoolemia

O Acórdão TRPorto considerou prova proibida a recolha de sangue sem o consentimento prévio de um motociclista a quem foi recolhida uma amostra para determinar o grau de alcoolemia, quando estava internado num hospital e num estado que o impedia de soprar no balão. O DL foi promulgado pelo Governo sem que a Assembleia da República lhe tenha concedido a respectiva autorização legislativa, pelo que se considera que tendo conteúdo inovatório, padece de inconstitucionalidade orgânica. Mas o mais extraordinário é que como se esta argumentação não bastasse, o T. vem aderir à argumentação da defesa do arguido, segundo a qual terá havido uma obtenção desleal do seu material biológico ao ter sido "omitido um procedimento essencial ao seu direito fundamental a um processo penal justo: o direito a saber que a recolha de sangue em causa era para efeitos de eventual responsabilização criminal". Qual a importância disto?! Na verdade, mesmo que superada aquela inconstitucionalidade, esta decisão abre portas e janelas: pode o arguido fazer valer o seu direito processual penal à não auto-incriminação.

«a colheita de sangue para análise do álcool no sangue do condutor sinistrado, embora praticado por um médico, não tem, em nosso entender, a natureza de acto médico em sentido estrito mas sim de um acto ou diligência de prova para efeitos de procedimento criminal. E tratando-se de um acto que viola a integridade física e tem como objectivo, uma possível incriminação do doente/sinistrado, é nosso entendimento de que o mesmo deve ser informado ou estar devidamente esclarecido do fim a que se destina a recolha do sangue.»

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Porque a Família é Sagrada


Porque no Natal celebramos a Vida. E porque acredito que algum dia, ainda que não no dia 25, nem à meia noite, nasceu um homem que se chamava Emanuel, que significa "Deus connosco" - Jesus de Nazaré. Que trazia uma mensagem universal, que a transmitiu ao povo onde se integrou. Na verdade, no Natal celebramos a vida de cada um de nós, e damos graças à família reunida. Natal não é enviar mensagens desenfreadamente aos contactos da lista telefónica. Natal é lembrar os amigos e pedir a Deus por eles. Natal não é um conjunto de etiquetas e embrulhos. Natal é começar a fazer filhózes à uma da madrugada para a família inteira, assim que a massa estiver finta, como acontece por tradição beirã em dias de festa. Não é Natal se não houver Amor. Natal é uma pausa na vidinha de todos os dias. Mas sobretudo, reviver a tradição. Gosto de ficar noite fora a contemplar as luzes do pinheiro de Natal. Quando era pequena lembro-me de tentar adormecer entre aquele misto de claridade e mistério. Gosto de lembrar as noites longas em volta da fogueira. Hoje o mistério mantém-se. Intacto.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Chi-a-do!

Para as alminhas mais distraídas, a Loja-das-Aldeias-do-Xisto-em-Lisboa está aberta desde 2006 - dois mil e seis - e fica bem perto da Sé, do CEJ e do Miradouro de Santa Luzia, enfim... no trajecto do Eléctrico 28! Para além da informação e postais de cada uma daquelas aldeias, encontram-se várias peças de artesanato, com a indicação da sua proveniência (coisas simples que nos são tão familiares, tais como as peças de linho da Casa das Tecedeiras), mas muito mais e para qualquer gosto.
Uns postais de (24) aldeias remotas, a natureza que inevitável e irremediavelmente envolve cada uma, a arquitectura que consegue, ainda que por breves momentos, transportar-nos para outro tempo - são (têm sido!!) capazes de despertar o interesse de qualquer pessoa que está a conhecer Lisboa pela primeira vez. Assim como, acredito eu, quem nunca dali tiver saído...
Hoje à tarde, com o frio que se fez sentir - anunciando o Natal, tal como eu o conheço - as ruas largas da Baixa-Chiado estavam especialmente cheias - tal como eu
gosto! - e de portugueses..

Ora, a Loja das Aldeias do Xisto, ela própria, desceu também até ao Chiado e aí permanecerá até ao dia 6 de Janeiro! Assim, fica apenas uma pontinha do Programa de Actividades Aldeias do Xisto nesta época Natalícia:
Todos os dias há chá com mel e licor para prova.
. 19 de Dezembro - "Oficina dos Objectos". Demonstração da produção artesanal de variados objectos artesanais, com base nas referências regionais.
. 22 de Dezembro - Tecelagem ao vivo com Sílvia Henriques: Tecedeira, da Aldeia do Xisto de Janeiro de Cima.
. 22 de Dezembro - Cestaria ao vivo com António Nunes dos Santos: Artesão de Alcongosta. Com cestaria em verga e castanho, além de Instrumentos Musicais.
. 22 de Dezembro - OCAIA Associação de Artes e Saberes (Grupo de Música Tradicional)
. 3 de Janeiro - Sorteio "Fim-de-semana na Aldeia do Xisto de Janeiro de Cima", às 14h.

Acho tudo isto delicioso.
Sou só eu?!

sábado, 12 de dezembro de 2009

Virgem Suta

São dois e de Beja. Gostei da música e do conceito.
Só os descobri hoje ali no myspace (deles!)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Cantiga da boa gente

Três palmos de terra, com uma casa à beira,
E o Manel mais eu para vida inteira!
Ele e quatro filhos são tudo o que eu gosto,
Gente mais feliz não há neste mundo, aposto!

Vamos pra o trabalho, logo ao clarear,
E de sol a sol, vá demorejar,
Tenho a vida cheia, tenho a vida boa,
Que Deus sempre ajuda a quem é boa pessoa!

Quando chega a tarde, tarde tardezinha,
Já o jantar fumega na lareira da vizinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Os sinos ao longe dão Ave-Marias,
Reza-se a oração de todos os dias.
Menino Jesus, meu botão de rosa,
Faz que a minha gente não seja má nem vaidosa!
Menino Jesus, boquinha de riso,
Faz que a minha gente seja gente de juízo!

Acabada a reza, vai-se pra o jantar,
Se alguém bate à porta, também tem lugar,
Come do que há, tarde tardezinha,
Mesmo ali, à beira da lareira da cozinha.
Os filhos sorriem, o Manel também,
Não há melhor vida que aquela que a gente tem!

Não invejo nada, nem quem tem dinheiro,
Pois pra trabalhar tem-se o mundo inteiro.
Basta só fazer o que se é capaz.
E a felicidade está naquilo que se faz.

E assim vou andando, com a graça de Deus,
Em paz e amor com todos os meus,
Trabalho não falta, todo santo dia,
Mas o coração, chega à noite, uma alegria!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Coffe time

Logo pela manhã, at coffe time, começo a ler o artigo do Pedro Lomba no Público sobre direitos da pessoa humana, direito à vida privada e as ameaças das novas tecnologias. Blá-blá-blá. Eis que chego a meio da notícia e não tive qualquer interesse em continuar a leitura. Coisas de estado de espírito e outras preocupações do momento. Momentos mais tarde, deparo-me com um papelinho na carteira com uma oferta, que indicava o meu número de telefone como minha identificação. Isto porque no dia anterior fui à telepizza, tendo feito previamente, por telefone, a minha encomenda (duas daquelas pizzas enormes com massa extra fina, gordurosas, sucolentas e gostosas). Mais tarde, na factura de compra, noto que com aquele simples telefonema impessoal, fizeram constar da factura o meu nome e a minha morada completa, para além, claro, do meu número de telefone. Isto porque aqui há uns meses pedi para me trazerem as pizzas a casa. Percebo o intuito de criar intimidade com os clientes, mas eu não gosto! Parece que a vida agora é assim, temos os nossos dados distribuidos com as pessoas com quem contactamos. Entretanto, não voltei a pegar no artigo que comecei a ler.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Começa hoje...

26, 27 e 28 de Novembro
Mostra Gastronómica Aldeias do Xisto, em Lisboa



O livro “Sabores da Aldeia - Carta Gastronómica das Aldeias do Xisto” vai ser a grande estrela na Mostra Gastronómica do Restaurante “Casa do Leão”, no Castelo de São Jorge em Lisboa, que decorre de 26 a 28 de Novembro.
Poderá assim provar uma ementa cuidadosamente seleccionada e elaborada pelo Chefe Leonel Barata, do Restaurante Fiado, de Janeiro de Cima (Fundão).
O II volume do Livro Máscara Ibérica será também apresentado a 26 de Novembro pelas 19h, na SALA OGIVAL do Castelo de São Jorge, em Lisboa. A par da apresentação do livro, poderão ser degustados produtos regionais das Adeias do Xisto. Sendo promovida a Mostra Gastronómicas das Aldeias do Xisto, no Restaurante “Casa do Leão”, no Castelo de S. Jorge, durante os dias 27 e 28 de Novembro. Numa parceria com as Pousadas de Portugal.
Fonte: AldeiasdoXisto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Dress to work



Uma mulher bonita não passa despercebida. Uma mulher feia passa. Mas uma mulher que não queira passar despercebida, certamente conseguirá o seu objectivo, mesmo que não pelas melhores razões. A máxima a reter - aplicável sobretudo às mulheres, que não têm a facilidade (e ainda bem) de recorrer àquele código uniforme, da camisa, do fato e da gravata - é a seguinte: "Diz-me como te vestes e que calçado usas, dir-te-ei o nível de equilibrio emocional em que te encontras." Não tem somente que ver com bom gosto nem com o bom senso ou disposição com se se abre o armário, quando de manhã, no fundo, decidimos a imagem que queremos que marque o nosso dia, e aquela com que queremos que toda a gente fique de nós mesmos, assim que olhe para nós.
É preciso divulgar uma série de regras simples. Alguém que explique, por exemplo, que umas calças de ganga, rasgadas, com buracos, ainda para mais justas até ao fundo - como se vê por aí - não fica bem com um sapatinho de salto em bico, qualquer que seja a cor ou o feitio do sapato! O desequilíbrio nesta conjugação, para quem ousa sair assim à rua, é incompatível com uma cabeça arrumada, mostra toda a fragilidade de alguém que não percebe o lugar que lhe é reservado, e não percebe que gostar de A e de B, não significa que se possa juntar A mais B, ao estilo de laranja com leite antes de ir deitar. O segundo exemplo de desequilíbrio nesta meia estação, entre o Verão da tarde e o Inverno da manhã é juntar umas calças pelo joelho sem collans e aquele sapatinho que usamos no Verão, com aquele casaco de peles quentinho, que até nos faz ficar mais gordinhas. O bom senso, o frio/calor que se faz sentir e o próprio espelho de corpo inteiro impedem que alguém possa sair assim de casa. O último caso de desequilíbrio que agora me ocorre é um caso de desequilíbrio proprio sensu, trata-se de um desequilíbrio físico, motor, provocado naquelas mulheres que se movem dificilmente em cima de uns saltos, pondo um pé atrás do outro no chão, como se estivessem a aprender a caminhar. A confiança e a própria segurança de algumas mulheres deslinda-se assim, aos olhos de qualquer um, em coisas simples que vão muito para além do bom senso e do bom gosto.
De facto, existem mulheres que parecem não ter amigas. Será que as amigas daquelas mulheres não tem coragem para lhes dizer? Ou é uma questão de personalidade e a personalidade delas é assim tão forte (tão forte) que nem o espelho lá de casa as convence??!!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Formas de sentir

Os Limites do Sentido
O significado de uma palavra é a sua utilização na linguagem. Mas pode fazer muitas outras coisas para além de retratar a realidade. Onde se encontram os limites do nosso pensamento? Nos boatos? Um boato não é admissível como prova em tribunal, ao passo que muitas as vezes é a única prova em que um historiador pode e fundamenta criteriosamente as suas revelações. Não será a nossa vida entendida apenas pelo seu passado? O supremo paradoxo de todo o pensamento é esta tentativa de descobrir algo que o pensamento não pode pensar. SERÁ ASSIM NO AMOR ENTRE DUAS PESSOAS?

" Devemos passar em silêncio por aquilo que não podemos falar"
Ludwing Wittgenstein

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Chamaste-me?

- Chamaste?
- Não.
Alegrava-me, apesar de tudo, pensar que sim. Era como se afinal não caminhasse sozinha naquela rua escura e vazia. Os vizinhos daquelas casas pareciam adormecidos. Era noite, mas sentia no meu ouvido um murmurar secreto de alguém que quer começar o dia. Estava escuro e não conseguia encontrar a lua. Olho para o céu e reparo nao existirem estreles em cima daquela rua. Mais à frente, percebo que a rua está iluminada com uma janela entreaberta. Uma janela entreberta e uma luz de vela, que é um quase nada lá dentro, ao fundo, por detrás de uma cortina vermelha. É o único sinal luminoso que parece existir entre estas paredes brancas que delimitam a estrada por onde passo. Caminhas ao meu lado, mas a medo de fazer barulho, a medo de caminhar, a medo de estar ali perto de mim. A verdade é que nenhum de nós está sozinho e no entanto a cada vez que sustentas a respiração, a cada suspiro envergonhado, eu imagino uma frase que pudesse naquele momento sair do teu coração.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

SALVAR AS APARÊNCIAS

Em todas as tentativas para compreender o mundo, ou antes, as pessoas, é necessário não perder de vista o facto das causas finais das nossas interrogações. OU SEJA: Por natureza, também o homem é um animal em busca da felicidade, isto é, do seu equilibrio enquanto personalidade que o disfarce dos restantes animais, segundo o qual uma virtude é o ponto intermédio entre dois extremos, sendo cada um deles um vício! Por isso, a generosidade é o meio termo entre a devassidão e a maldade; a coragem entre a temeridade e a cobardia; o orgulho entre a vaidade e a auto-humilhação e a modéstia entre a imprudência e a timidez.

"OS FRACOS ESTARÃO, PORTANTO, ÁVIDOS DE JUSTIÇA E DE IGUALDADE, E OS FORTES NÃO DÃO IMPORTANCIA A NENHUMA DELAS"
Aristóteles

sábado, 24 de outubro de 2009


ENSINA-ME A VOAR

Eu sei que as leis e os decretos te ocupam bastante tempo... e mais ainda as outras coisinhas!
Mas "olha": Escreve, vai escrevendo, não deixes passar tantos dias sem dar notícias. É que na verdade, os teus pensamentos são um conforto em certos dias, quando julgamos não haver mais ninguém a querer voar como nós, E NÓS...SOMOS UM TODO, um todo desejado em partilhar. Da minha parte, e agora que desabafei, partilharei a partir de hoje as minhas desavenças filosóficas.

"POR NATUREZA TODOS OS HOMENS DESEJAM VOAR"
Leonardo da Vinci
És maravilhosa...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Que a vida é toda secreta*

Há um curso de águas paradas
Uma esperança à espera de o ser
Há um caminho trilhado por ninguém
Um jardim de flores por nascer

Um coração para arrancar de um peito
Uma saudade que corrompe o presente
Um futuro que nunca irá ter fim
E um corpo que só a dor consente

Lua cheia num céu vazio de estrelas
E o arrepio de uma noite sem ti
Haverá isto, e tudo o mais também
Que a vida é toda secreta ... por aqui

(Helder Salvado)

* Verso do poema Soledad de Cecília Meireles

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ladrão que rouba ladrão...

Afinal não tem 100 anos de perdão. Também ele comete um furto.
Mas contra quem? A questão era saber se a mera detenção de uma coisa é, em si, tutelada pelos tipos de crime contra a propriedade, nomeadamente pelo furto. Na verdade, o primeiro ladrão não tem nem a propriedade, nem qualquer tipo de fruição legítima do bem. Mas ainda que a coisa não seja dele, a detenção dele - seja a que título for - deve ser considerada para efeitos de preenchimento do crime de furto. Deve?! O regente da cadeira insistia que não. Para ele, a detenção nunca tem relevância de modo autónomo, mas só quando "em linha" com quem detém o direito de propriedade, que é o bem jurídico tutelado. Significa dizer, suponho, que o segundo ladrão está a furtar, sim, mas ao verdadeiro proprietário, sendo que só este tem direito de queixa. Exactamente, foi isso que percebi. Mas não sei se assim é. E se isto é um caso académico, posso discorrer. No caso de, eventualmente, o primeiro ladrão se arrepender - isto é, 'mudar de tenções' relativamente ao destino a dar à coisa furtada -, deveria ele próprio poder apresentar queixa. Ele era detentor, e ele foi furtado! Até porque, para todos os efeitos, foi sobre ele que naquele momento se quebrou, publicamente, a ordem de relações criada entre as pessoas e as suas coisas. Designadamente para o efeito concreto de levantamento de auto de notícia por parte de autoridade judicial, se for esse o caso.
Ora, sustentando a sua posição, dizia o regente que para a posição contrária seria forçoso admitir então que o proprietário que fosse reaver a sua coisa do ladrão poderia estar ele próprio a cometer um furto, vendo o ladrão como a vítima deste furto. E que seria como ver alheia uma coisa que, afinal, é própria. Não colhe. O meu raciocínio de imediato foi constatar que, nesse caso, nem sequer está preenchido o elemento "alheio", sendo que a coisa é do proprietário, razão que - simplesmente - explica o não preenchimento do tipo de crime.
"Quem, com legítima intenção de apropriação para si ou para outra pessoa, subtrair coisa móvel alheia, é punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa."
Certamente estarei errada, mas hei-de estudar o assunto e, quem sabe, reflectir melhor sobre ele.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Simples




«Bem amiga, vou sair.
Pode ser que amanhã quando acordarmos os problemas do mundo tenham desaparecido.
LOL
Os nossos dramas pelos menos, vá...»

Dito por volta da uma da manhã, por alguém que normalmente me costuma encher o coração. Para tanto, bastavam as memórias que guardo desde a infância. Dos tempos em que ao sair da escola primária, compunhamos um melodia para os poemas que encontrávamos nos livros de língua portuguesa, bem como coreografias para as músicas já conhecidas. Dos tempos em que arranjavamos desculpa para ires ver o meu cantinho das barbies. Nunca ninguém me conhecerá tão bem como alguém que tenha brincado comigo às barbies, e sobretudo alguém que soubesse brincar às barbies, coisa que hoje em dia, a ver pelas crianças que passam lá por casa, não é comum. As barbies já estão na minha gaveta, mas a verdade é que fazemos questão de construir juntas novas memórias.
Não se pode desperdiçar alguém que conhecemos desde sempre!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Aparição

Hoje vi-te. Olhei para ti verdadeiramente. Apareceste de repente, já noite, mas não te soube dar a devida atenção. Quando os problemas nos absorvem, o raciocínio fica prejudicado pela maneira egoísta e pobre como olhamos para o que nos rodeia, mesmo que isso possa ser a coisa mais importante que temos na nossa vida. Que interessa isso quando, absortos, nada mais existe senão o mundinho de pluri-evidências, nas quais pensar e repensar já não leva a porto nenhum. A verdade é que há momentos em que devemos estar sozinhos e em que o confronto com o outro - quem quer que seja - não nos favorece. Pelo contrário, de mim falo, elevam mentalmente cada defeito, cada preocupação, e para minha revolta, aumentam o volume de cada suspiro de que tenho vontade. Se abrir a boca, o que nestes momentos se torna um esforço imenso, e até uma busca de respostas simples a perguntas simples, será certamente para lamentar-me, como se o outro não estivesse ali, sendo que o mais certo é remeter-me ao silêncio pesado que sei que o meu rosto carrega. O diálogo que possa estabelecer-se então, não deve conter mais do que uma ideia - uma ideia simples - de cada vez, para que eu me matenha paciênte, e para que o meu espírito não se distraia comigo própria. Inevitávelmente, fico impaciente e nervosa. E tu estás ali, e não te vais embora sem que eu te diga que podemos ir. Quando fico sozinha percebo que te podia ter dado mais um beijo, e que talvez isso chegasse para te consolar - a ti e a mim. Não consegui ser coerente, nem consigo parecê-lo, quando penso e várias coisas ao mesmo tempo, sem que nenhuma delas seja o momento que nos está a acontecer. Não te vi, na verdade.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Fogo na noite escura

Eremita de sonhos cansados
Claustro incompleto à espera do fim
Dono de uma alma em contrabando
Em múrmurios e preces pelo nada

Tudo acaba sem dados lançados
O meu começo foi o prenúncio do meu fim
Que pela estrada já vai chegando
A serpente e o veneno que mata

Vou caminhando na escuridão
Descendo as águas do rio que não me conduz
Que este caminho é poeira e solidão
Beco ou impasse que não seduz

Este caminho é poeira e solidão
Sangue que já estancou no coração
Num peito ainda em chama
Por este fogo que eu pus

(Salvado)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Agir

"Agir, eis a inteligência verdadeira.
Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for.
O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito.
Condições de palácio tem qualquer terra larga,
mas onde estará o palácio se não o fizerem ali?"
Fernando Pessoa

domingo, 4 de outubro de 2009

Shhhhhiu

Não opines.
Não interrogues.
Cala.
O melhor do relacionamento entre duas pessoas e entre o mundo em geral pode mesmo traduzir-se num silêncio.
O cuidado de não ferir o outro e a desnecessidade de impor o nosso ponto de vista quando não é preciso é uma finesa que nem toda a gente consegue ter.
Exige uma sensibilidade apurada que raros seres humanos atingem, e que a convivência em sociedade implora.
Cheguei a defender, dogmaticamente, que tudo se pode dizer, dependendo do modo como se diz. Das palavras escolhidas e até da entoação com que se dizem.
É um erro.
Aqui, e em jeito de prece: 'Há coisas que não se podem dizer'.
Simplesmente.

sábado, 12 de setembro de 2009

Metamorfose

"Quando Gregor Samsa despertou uma manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto."

Como lidamos com as diferenças dos outros são as impressões que ficam da história de um caixeiro-viajante, que é levado a viver a sua vida como um insecto. As suas preocupações e a repugnância dos seus. Escrita em 1912, e contextualizada pelo Existencialismo, é o choque da família e o confronto que nem todos conseguem ter com Gregor que leva a crer que a vida humana não é mais do que a sua forma. Como seria se, afinal, cada um de nós não fosse aquilo que os nossos esperam de nós? Se não tivessemos a forma de uma vida humana? Mas, ainda assim, a nossa existência permanecesse intocável? Com pensamentos e preocupações, sem que os outros soubessem disso?

"O pai, transtornado como estava, nao percebia que era necessário abrir o outro batente da porta que estava fechada para que Gregor pudesse passar à vontade. Não o dominava senão uma ideia, a de que Gregor devia regressar àquele quarto tão depressa quanto possível. Nunca deixaria Gregor efectuar todos os movimentos necessários para erguer o corpo em altura e deste modo passar a porta. Pelo contrário, como se isso não representasse qualquer obstáculo, empurrava Gregor, aumentando o barulho que fazia. Para este, o que ouvia atrás de si, já não era unicamente um único pai: não era ocasião para brincadeiras e Gregor, desesperadopassou pela abertura da porta à força. O seu corpo ergueu-se de um dos lados, e passou de viés, com o flanco todo esfolado, sujando o branco da porta com feias manchas; mas logo ficou entalado, de tal modo que não conseguia sair dali - de um lado, com as suas pequenas e trémulas patas suspensas noa ar, enquanto que do outro lado se encontravam esmagadas contra o chão -, se não fosse o pai a dar-lhe por trás um golpe com violência verdadeiramente libertadora, fazendo-o voar até meio do querto, sangrando com abundância.
Logo a seguir a porta foi fechada com um golpe de bengala, após o que caiu o silêncio."

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

domingo, 6 de setembro de 2009

Folk Festival - Aconteceu.

O Festival Folk - SONS 09 - decorreu com a maior das naturalidades, no verdadeiro sentido da palavra naturalidade, e o parque fluvial de Janeiro de Cima tornou-se um espaço de convívio como não via há muito tempo. Entre conhecidos e desconhecidos, ficcionados e curiosos, ninguém ficou indiferente às melodias de sempre, portuguesas e não só, que tomam uma nova vida a cada dança de roda e a cada troca de par. As minhas Andanças têm apenas um ano. Até agora contabilizam-se dois Festivais SONS em Janeiro de Cima, uma Jam no Largo do Carmo e um concerto no Terreiro do Paço. Sempre tentei observar para poder dançar. E dancei! Mas em jeito de promessa a mim mesma: Hei-de aprender a dançar assim, e fazê-lo uma noite inteira!! Encontrar pessoas que aqui estiveram no ano passado e que em Lisboa encontrei em eventos semelhantes, conversar com pessoas daqui, mas que só nestas ocasiões temos oportunidade, e conhecer. Na verdade, não gosto muito de me dar a conhecer, mas adoro conhecer pessoas, e o festival foi, para meu encanto, uma caixinha de boas surpresas.
Voltem sempre! Uma vez por ano, vá.
Para quem não faz ideia do que perdeu.... Nada como uma boa galeria de fotos, AQUI. Existem também as fotos do ano passado ALI.

domingo, 30 de agosto de 2009

Alto Douro Vinhateiro

E que tal um Cruzeiro?! Eu adorei. E quando a expectativa é grande, sabe tudo muito melhor. Mil vezes melhor que um dia inteirinho de praia. Portugal tem recantos admiráveis, que se estendem ao longo de todo um rio, entre o Porto e Barca de Alva. O que mais impressiona, para além da paisagem, é a riqueza daquelas Terras e o trabalho dos novos e dos antigos para que das ingremes encostas se exportasse um produto dos Deuses. Ponto assente: o meu embarque em Peso de Régua há-de repetir-se.



"Primeiro a serra semeada terra a terra nas vertentes da promessa. Depois o verde que se ganha ou que se perde quando a chuva cai depressa. E nasce o fruto quantas vezes diminuto como as uvas da alegria, e na vindima vão as cestas até cima com o pão de cada dia. Suor do rosto pra pisar e ver o mosto nos lagares do bom caminho. Assim cuidado faz-se o sonho e fermentado generoso como o vinho. E pelo rio vai dourado o nosso brio nos rabelos duma vida. E para o mundo vão garrafas cá do fundo de uma gente envaidecida. (...) Por isso há festa, não há gente como esta quando a vida nos empresta uns foguetes de ilusão. Vem a fanfarra e os míudos, a algazarra, vai-se o povo que se agarra pra passar a procissão. E são atletas, corredores de bicicletas, e palavras indiscretas na boca de algum rapaz. E as barracas mais os cortes nas casacas, os conjuntos, as ressacas e outro brinde que se faz. Vinho do Porto, vou servi-lo neste cálice, alicerce da amizade em Portugal. É o conforto de um amor tomado aos tragos que trazemos por vontade em Portugal. Se nós quisermos entornar a pequenez, se nós soubermos ser amigos desta vez, não há champanhe que nos ganhe, nem ninguém que nos apanhe porque o vinho é português."

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Sons 09

Festival Folk em Janeiro de Cima - 4 a 6 de Setembro
«Um rio convida estendendo o ar fresco que cativa nas tardes quentes, um programa recheado e aberto a imensas caras alegres no regaço de uma serra que acolhe. Será assim a segunda edição do Sons09 em Janeiro de Cima, aldeia-casa no Fundão.
Primeira pedra de uma iniciativa que se estenderá nos anos e que nos levará numa viagem incrivel pelos recantos das aldeias do xisto, o Sons09 será o momento de retomar memórias de 2008 para uns e excusa soberba para arrecadar recordações para todos. Setembro receberá melodias de sempre quando o primeiro fim de semana chegar.»
(Mais informações em
http://www.sons09.rodobalho.com/)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dignidade


Ele há gente capaz de estar sempre no seu melhor, e gente que consegue ficar sempre bem na fotografia, e gente que consegue rodopiar sem tropeçar, gente que impressiona todos os que neles descansam o olhar, sem que isso canse. Ele há gente que consegue despertar inveja no modo de vida que aparenta levar, por tudo o que conseguem fazer, e por tudo aquilo que têm, e por tudo aquilo que os ornamenta.
No Verão, altura em que, vá se lá saber porquê, todos estes sintomas se intensificam, as pessoas parecem ter os interesses completamente ofuscados pela futilidade e pela sensação do curto prazo, do agora, do consumo, do belo, do melhor-que-o-do-vizinho, da hipocrisia. Só que na maior parte dos casos essa não há ali, afinal, uma prespectiva consolidada de tudo o que faz. Faz-se assim... Ao Deus dará. E acredito piamente que ao deitar, reine no coração dessa gente um vazio de ideias. Porque o coração, sim, deve ter ideias. Deve saber o que faz. Deve, pelo menos, dar sentido àquilo que faz. Quando assim não acontece, não há uma explicação digna para os actos que tomamos. Nada de confusões!!! Seguir os instintos mais primários não é seguir o coração. DIGNIFIQUE-SE.